Sábado, 26 de junho de 2010 às 8:28
Brasil e Canadá unidos por uma governança global mais democrática
Desde que a crise financeira abalou significativamente as estruturas econômicas e comerciais que mantém com os Estados Unidos, o Canadá tem procurado fortalecer seus laços econômicos e comerciais com países emergentes para fugir um pouco dessa dependência – e o Brasil vem tendo um papel preponderante nesse movimento, ajudando a estabelecer pontes entre a poderosa economia canadense com as emergentes africana e latino-americana. Segundo avaliação do embaixador brasileiro no Canadá, Paulo Cordeiro de Andrade Pinto, essa ‘dobradinha’ tem futuro, mas ainda exige um certo trabalho de bastidor para desfazer alguns mitos.
“Os canadenses têm que ser educados para entender melhor o Brasil, porque eles não estavam acostumados a ver países latino-americanos com tamanha organização e força econômica como o Brasil tem hoje”, afirmou o diplomata em entrevista exclusiva ao Blog do Planalto em Toronto, onde começou esta semana a quarta conferência do G20. “Eles têm percebido que precisam nos conhecer muito mais – e nós a eles”, disse o embaixador, que há dois anos e meio atua na capital Ottawa. “O Canadá vê uma espécie de ascenção do Brasil no mundo hoje e quer se aproximar. Essa aliança com o Brasil é do interesse dos canadenses, pois significa uma ponte com a América Latina e com a África também”, avalia o diplomata, lembrando que Brasil e Canadá são antigos parceiros e podem solidificar ainda mais essa ligação, principalmente em assuntos ligados à governança global, tão discutida nos fóruns internacionais como o G20.
A parceria entre brasileiros e canadenses em reuniões como as do G20 não é de se estranhar se levarmos em conta que os dois países compartilham, por exemplo, o fato de terem sistemas bancários sólidos, modernos e bem regulados, funcionando como sustentáculos do crescimento de ambas economias. “E tanto eles como nós fomos afetados pela crise gerada pelos outros. Eles perderam um mercado enorme que é o americano e foram levados de maneira compulsiva e compulsória a entrar mais nos mercados emergentes como os da Índia, China e o nosso”, explicou Paulo Cordeiro, que espera ver brasileiros e canadenses atuando cada vez mais juntos em fóruns internacionais como o G20 para tentar “disciplnar aqueles que nunca quiseram ser disciplinados”.
O Canadá é um dos principais entusiastas da participação brasileira no G20, considerando o Brasil um parceiro importante na governança global e um dos principais vetores da democratização da economia mundial, por meio da ONU e de instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC). “Nossa linguagem hoje dentro do G20 não só dá legitimidade ao G20 como defende o ponto de vista das grandes maioria dos países emergentes – e o Canadá tem feito a ponte entre essas novas economias e o velho mundo”, afirmou o diplomata brasileiro. “Nossa presença no G20 dá voz e força aos países emergentes e tem contado cada vez mais com o apoio de países desenvolvidos, como no caso do Canadá.”
Essa ‘tabelinha’ Brasil-Canadá tem funcionado também na parceria econômica/comercial. Os dois são atualmente concorrentes em setores importantes da economia, como a agroindústria e tecnologia aeronáutica (a brasileira Embraer tem conquistado mercado na terra natal da canadense Bombardier, tendo hoje 65 aviões circulando pelo país), mas têm estabelecido parcerias promissoras em outras áreas como seguridade social, consultoria e equipamentos para o setor de petróleo. Enquanto a brasileira Vale investe quase US$ 20 bilhões na exploração de níquel no Canadá, as empresas canadenses estão de olho grande no mercado de construção civil brasileiro, que vive um momento de ebulição, bem como nas muitas oportunidades de negócio prometidas com a exploração das novas jazidas do Pré-sal. O Brasil é visto pelos canadenses como uma potência emergente no mundo que não pode ser desprezada em hipótese alguma, diz o embaixador Paulo Cordeiro.
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