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Terça-feira, 7 de julho de 2009 às 17:55

A responsabilidade de cada um

EntrevistasEm entrevista ao Le Monde, o presidente Lula falou das responsabilidades do Brasil e dos países ricos na solução da crise mundial e de diversos temas sensíveis da atualidade.

Quando perguntado sobre a Amazônia, Lula reiterou que tem buscado o equilíbrio entre a preservação ambiental e o desenvolvimento social do povo da região, e foi mais longe — disse que a preservação só é possível quando se promove o desenvolvimento e se cria condições dignas para a população:

“[...] muita gente que fala da Amazônia sem conhecer a Amazônia. E penso que no mundo não tem ninguém com mais autoridade para falar da Amazônia do que nós brasileiros. E o que nós queremos é levar em conta que na Amazônia moram 25 milhões de pessoas, e que essas pessoas têm o direito a ter o mesmo status social que tem qualquer ser humano no planeta Terra, elas têm direito a ter acesso a bens materiais, elas têm direito a trabalhar. [...] precisamos gerar emprego e desenvolvimento na Amazônia e é por isso que nós temos conseguido diminuir o desmatamento, e muito.”

O presidente falou também da responsabilidade de cada país na busca da regeneração das economias globais pós-crise, reafirmando a ligação entre desenvolvimento e preservação ambiental, e colocando em pauta a discussão sobre os padrões de consumo mundiais:

“eu acho que neste século nós vamos começar a discutir, inclusive, o padrão de consumo da humanidade, se vai continuar assim, se vai melhorar, se os carros vão ser com combustível fóssil ou se vão ser com combustíveis limpos. E aí uma responsabilidade do mundo rico, sobretudo, mais do que do mundo pobre. [...] Não tem como você pedir para um cidadão do Haiti não cortar uma árvore, se ele não tem gás, não tem nada para acender um fogo, ele vai ter que utilizar lenha. A única chance que nós temos de garantir que o Haiti possa ser reflorestado e viver como país menos destruído, é você desenvolver o Haiti. E aí é, outra vez, a responsabilidade dos países ricos. Ou seja, qual é participação do Brasil, da França, dos Estados Unidos, para que a gente possa desenvolver o Haiti e dar a eles condições de sobrevivência compatíveis com as necessidades humanas. Esse é o desafio.”

Segundo o presidente, para que se possa construir os arranjos necessários para que todos os países façam a sua parte, é necessária a construção de foros multilaterais fortes, como o G20, onde países pobres e países ricos se sentam lado a lado para discutir soluções e responsabilidades frente aos problemas locais e globais. Ainda segundo Lula, as responsabilidades dos países ricos não se limitam a resolver seus problemas econômicos e ambientais internos, mas também a ajudar os países pobres a se desenvolverem e se tornarem capazes de solucionar seus problemas.

Sobre a relação Brasil-França e as possíveis ações conjuntas dos dois países, o presidente enfatizou o potencial desta cooperação na ajuda à África:

“A França tem uma influência muito grande em vários países africanos. O Brasil tem uma relação extraordinária com quase todo o continente africano. [...] Como é que eu acho que nós deveríamos trabalhar? Acho que nós deveríamos mapear os projetos importantes de desenvolvimento para os países africanos. E nesses projetos de desenvolvimento França e Brasil entrarem com a ajuda financeira e com a ajuda tecnológica. Ou seja, para que a gente crie a possibilidade de no século XXI a África não continuar sendo o continente mais pobre do Planeta. [...] Então, se a gente quiser tranquilizar e ter paz e fortalecimento da democracia na África, isso está ligado ao crescimento econômico e à distribuição de renda naquele continente.”

Por fim, quando o jornalista do Le Monde perguntou a Lula se ele se sentia traindo suas raízes da sindicais e de esquerda em sua atuação como governante, o presidente foi direto em afirmar que nunca se afastou do diálogo com o povo:

“Eu estou convencido de que na história do Brasil nunca houve nenhum momento de um governo que tenha a relação mais forte com o movimento social brasileiro. E não por cooptação, (mas) por participação. [...] Grande parte das políticas adotadas pelo governo são políticas feitas pela sociedade. Ou seja, nós já fizemos no Brasil mais de 53 conferências nacionais, conferência de Saúde, de Educação, vamos ter a última, agora, de Comunicação [...] (e também) a Conferência Nacional de Segurança Pública. [...] Porque eu tenho a convicção de que eu estou de passagem, mas o povo é permanente. Então, a política não é para o governo Lula, a política não é para mim. A política é para a sociedade. [...] Então, é assim que eu consigo governar na globalização, dando prioridade aos problemas brasileiros e, sobretudo, à parte mais pobre da população.”

A íntegra da entrevista do presidente ao Le Monde está disponível em texto e áudio no portal da Secretaria de Imprensa da Presidência da República.

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